Pesquisadores holandeses e brasileiros estudam os fragmentos da história da época do Brasil holandês mapas

Fortaleza – Há 373 anos os holandeses chegavam ao Ceará sob o comando de Jorge Gartsman e o Coronel Hendrick Huss. A chegada resultou no combate entre 126 homens bem armados e com muita munição e outros 33 com armas deficientes e baixa munição, e na tomada do então Forte de São Sebastião, hoje Forte de Nossa Senhora de Assunção. Apesar do curto período da estadia nas terras alencarinas, entre expulsões e retornos, os profissionais trazidos pelas tropas holandesas conseguiram registrar detalhes da costa litorânea e da topografia cearenses e de outros lugares do Brasil. Muitos destes documentos ainda estão desconhecidos. Alguns estavam guardados em gavetas e arquivos em universidades e bibliotecas da Holanda e dos Estados Unidos, conforme declaração do linguista, professor e pesquisador independente, Benjamin Teensma. Outros já foram publicados como atlas e guias aqui no Brasil e também em outras línguas.

De acordo com Teensma, a mais recente descoberta é o documento 4.VEL Y, de propriedade do Arquivo Nacional dos Países Baixos, denominado como “Den Corte Bescrijvinge. Inhoudende. De Cust van Brazil ende meer andere Plaetsen”(Uma breve descrição contendo a costa do Brasil e outros locais), datado de 1640, ainda com autor anônimo.

No total são 30 mapas sobre a costa brasileira. Um deles, 4.VEL Y-59, mostra a costa do Ceará e tem o título “De Cust van Brazil tussen Ponte Abaron en Rio Sijara”(A costa do Brasil entre Jabarana (Ponta Grossa) até a Barra do Ceará).

“São atlas manuscritos com uma breve descrição da costa do Brasil e mais alguns lugares (Chile e Angola). São 30 mapas dedicados à costa do Brasil, de Ilhéus (BA) ao Maranhão. Um deles, o número 15, descreve o mapa do Ceará, com dados hidrográficos, detalhes geográficos, topografia, rios”, afirmou o pesquisador.

Parte destes documentos serão apresentados durante as comemorações do quarto centenário de George Marcgraf, alemão nascido em 1610 e cartógrafo de João Maurício de Nassau que registrou dados do Brasil, em simpósio e exposição, em Leiden, na Holanda, com previsão para acontecer no dia 23 de setembro. Além disso, uma publicação está sendo preparada por um editora brasileira, a Kapa Editorial, contendo todos o conteúdo do atlas.

Em 2007, a mesma editora publicou o livro “Roteiro de um Brasil desconhecido”, com documentos inéditos da costa brasileira e também do Ceará. O professor Teensma ajudou na pesquisa e na localização dos documentos apresentados. Agora, a editora será responsável, também, pela publicação dos novos documentos. “Para a edição de 2007, os editores visitaram a Holanda para escolher as ilustrações e eles selecionaram três. Agora querem publicar o atlas manuscrito anônimo 4.VEL Y. Está se preparando uma edição fac-símile em holandês, português e inglês”, afirmou ele.

Localização

No documento 4.VEL Y-59, referente ao Ceará, constam alguns topônimos desconhecidos. Como ele foi produzido em um holandês antigo e em letra manuscrita, os pesquisadores têm dificuldades em identificar as palavras. Além disso, foram escritos em alfabeto gótico, dificultando ainda mais a leitura. Os textos estão cheios de referências de lugares brasileiros, de acordo com o pesquisador. Devido ao não conhecimento do idioma indígena, os cartógrafos da época cometiam muitos erros na identificação. “Eu chamo isso de corruptela e para restaurá-las tem que se conhecer termos do tupi-guarani e do português e isto é uma experiência nas línguas de anos e anos”.

O pesquisador conta, ainda, com o trabalho de outros profissionais, incluindo brasileiros, na tentativa de identificar os topônimos. Lodewijk Hulsman e E. van den Boogaart são alguns dos especialistas na época do Brasil holandês. Ao estudar com atenção o texto da antologia e a qualidade dos mapas, Teensma identificou, no entanto, a autoria da organização desses documentos: o diretor da Companhia das Índias Ocidentais, João de Laet. Segundo dados de Teensma, Laet reuniu em atlas manuscrito mapas e textos geográficos, todos anônimos, a respeito do Brasil.

Alguns mapas datam de 1643, desenhados por George Marcgraf, por encomenda de Maurício de Nassau. Posteriormente, “os mapas serviram de base aos mapas que se encontram impressos no famoso Gaspar Barlaeus, de 1647”, afirma o professor Teensma. Este livro foi editado no Brasil, em 1940, com o título “Histórico dos feitos recentemente praticados durante 8 anos do Brasil”. Além dos manuscritos, existe também um mapa mural, publicado em Amsterdã, em 1647, pelo editor de Barleus, chamado João Blaeu. “Lá consta um letreiro que diz que o cartógrafo chamava-se George Marcgraf e que desenhou os originais em 1643 por ordem de Nassau”, disse.

Novas descobertas

Esta descoberta e a sua publicação recupera capítulos da história do Brasil e do Ceará. O que pode ser ampliado ainda mais com o estudo de outros documentos disponíveis na Holanda, conforme afirmou Teensman: “os arquivos holandeses abusam de documentos ainda desconhecidos sobre o Brasil do século XVII”.

PARCERIA
Inscrições precisam ser identificadas

O psicólogo cearense J. Terto de Amorim mora na Holanda desde 1997. Ele se define como curioso e estudioso da história do seu Estado, e por isso, ano passado, iniciou uma pesquisa sobre a história do período do “Siara-Holandês”(Ceará entre os anos 1637-1644 e 1649-1654). Em visita ao Arquivo Nacional dos Países Baixos, em Haia, ele conheceu o mapa do Brasil, no período dominado pelos holandeses. Depois de muita conversa, e-mails e telefonemas, ele, finalmente, teve acesso ao mapa original. “Consegui ver o original, fotografei e estudei pedaço por pedaço”, afirmou Terto. “Desta forma de procura cheguei a fontes primárias (mapas) que não constavam em literaturas, bem como instituições que poderiam ter mais mapas do Ceará”.

Daí em diante não parou mais de pesquisar sobre esse período da história do Brasil. Visitou a Biblioteca Real dos Países Baixos, a Biblioteca da Universidade de Utrecht, o Museu Marítimo de Rotterdam, a Biblioteca da Universidade de Leiden, e nesta busca encontrou outros profissionais que se dedicam ao assunto. “Entrei em contato com pessoas que têm interesse sobre a história nesta época. Comecei a procurar dentro do Arquivo Nacional e descobri coisas inéditas”. O gosto por mapas e pela história levou Terto de Amorim até o professor Benjamin Teensma. Os pesquisadores querem, agora, identificar os topônimos apresentados no atlas manuscrito anônimo.

Para Terto, “são muitas as perguntas sobre ele (mapa), muitos enigmas. Os mapas foram enviados aos índios tremembés e aos pitaguaris”. No mapa referente ao Ceará (Y-59), três inscrições ainda precisam ser identificadas, são elas: “tapuets pintuba”, “Brasiliansche meruapunga” e “Kaburou Apunga”.

A objetivo dos pesquisadores holandeses é montar este quebra-cabeça histórico, ampliando o contato com historiadores e outros pesquisadores brasileiros. “Seria interessante e muito produtivo para a história do Ceará se os historiadores cearenses fizessem uma ligação direta com os pesquisadores holandeses, porque eles estão achando pedaços da história que não temos”, alerta Terto.

fonte: Emanuelle Lobo

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