Brasileiros sem documento na Holanda

Esta reportagem especial trata da realidade de trabalhadores não-qualificados na Holanda, com atenção para a imigração feminina. Em geral, esses imigrantes não têm registro oficial e vêm aos Países Baixos por uma temporada, que acaba se estendendo.

Railda Herrero e Mario de Freitas

Neste programa da série “Vozes das Mulheres do Brasil” retratamos a realidade de trabalhadores não-qualificados na Holanda, com atenção especial para a imigração feminina. Em geral, esses imigrantes não têm registro oficial e vêm aos Países Baixos por uma temporada, que acaba se estendendo. Vivem entre idas e vindas, sem se adaptar no país e com dificuldades de readaptação na terra natal.

Calcula-se que em toda a Europa, os brasileiros somam quase um milhão. A Holanda era um porto seguro para muitos trabalhadores sem documentos, até a chegada da crise econômica. Atualmente, a imigração clandestina passou a ser mais controlada e o trabalho “no negro” (sem registro) está escasseando. Sem registro oficial, esses trabalhadores se deparam com constantes problemas de moradia. Outro agravante é quando a saúde vai mal, pois dependem de instituições beneméritas, já que os tratamentos são caros e inviáveis.

Na Holanda, como na maioria dos países escolhidos pelos trabalhadores não-especializados na União Europeia, a migração tem o rosto feminino. Isso porque as mulheres têm mais facilidade em conseguir trabalho na faxina ou no cuidado de crianças ou de idosos.

Tráfico
O país, liderado por uma rainha, não escapa da sina de abrigar aliciadores de mulheres traficadas para o trabalho na prostituição. Além das armadilhas dessas redes, muitas mulheres saem do Brasil atraídas por falsas promessas de casamento ou de trabalho milionário, indo parar no mundo da prostituição. Há ainda as que se arriscam nessa profissão, que não exercia antes, para juntar mais dinheiro rapidamente.

Na Holanda, considerada não um alvo, mas uma passagem a outros países, os imigrantes oficiais do Brasil somam quase 14 mil. No entanto, estima-se em pelo menos sete mil os que vivem sem registros legais no país.

A mineira Ivonete dos Santos, há mais de 13 anos fazendo faxina e cuidando de crianças na Holanda, não tem queixas dos holandeses que contratam seus serviços.

No entanto, Débora Arcanjo de Amorim, que foi de Goiânia à Holanda, enfrentou uma situação extremamente difícil nos primeiros tempos no país. Viveu uma situação bastante similar às que as vítimas do tráfico enfrentam. A família de brasileiros, estabilizada no país, que a convidou para cuidar de uma criança com necessidades especiais não pagava o prometido e, depois de seis meses de trabalho, ainda dizia que ela devia a passagem.

“Goianda”
Os goianos predominam, atualmente, entre os imigrantes em situação irregular na Holanda. Um vem atraído pelo outro e vão formando uma teia de parentesco, amizades. O sonho de todos é, em geral, arrumar trabalho e economizar para comprar uma casa, montar um negócio no local de origem e voltar. No entanto, o Pastor Marcos Viana, da Comunidade Cristã de Amsterdã, que está na Holanda há treze anos, avalia que isso acaba se tornando cada vez mais difícil, na medida em que o imigrante acostuma-se com a cultura local e o nível de consumo que, muitas vezes, não consegue no local de origem.

Nesse programa, o Pastor Marcos relata as dificuldades desses imigrantes se readaptarem quando tentam voltar ao Brasil. Fala sobre as dificuldades diante das doenças e “da maior de todas as enfermidades dos imigrantes, a depressão”. Além disso, relata as angústias enfrentadas nos casos de prisões que podem ocorrer após um simples controle na rua, por causa de uma multa, por exemplo.

De acordo com o Pastor Marcos, a intensificação do controle de imigrantes tem tornado a vida dos brasileiros sem documentos mais difícil. A polícia, que era bastante condescendente, tratando os brasileiros com respeito, pela fama de bons trabalhadores, está apertando o cerco com o arrocho das leis contra imigrantes na comunidade europeia.

Há diversas igrejas brasileiras na Holanda, que atraem os imigrantes, em busca de identificação e de fuga da exclusão social. Num culto da Assembléia de Deus, em Amsterdã, o perfil da população de imigrantes está claro. Faxineiras e pedreiros das mais diferentes faces, mostram a diversidade regional dos imigrantes no país. Nesse programa especial, o dirigente da instituição, Pastor Araújo, fala sobre os fiéis que buscam alento na religiosidade para enfrentar a difícil vida de imigrante.

Apoio
Organizações Não-Governamentais e voluntários da Europa tentam ajudar pessoas que caem em redes de prostituição ou que enfrentam dificuldades para entender as diferenças culturais. A Diáspora Solidária é uma instituição que dá assistência a latinas vítimas de aliciadores para o tráfico na Holanda. Entre as atendidas pela ONG, a psicóloga Fabíola Morales diz que há diversas brasileiras vítimas de casamentos que eram armadilhas para a exploração sexual. Há ainda muitas que foram enganadas com falsas promessas de contrato e para dançar no país.

A Radio Nederland, com o apoio da agência holandesa de cooperação para o desenvolvimento Cordaid, apresenta a série de programas especiais Vozes das Mulheres do Brasil.

Com quase trinta minutos cada, esta nova série de programas visa aprofundar temas como a desigualdade, o tráfico de seres humanos, a violência doméstica e o abuso de meninas. Mostra um perfil das mulheres brasileiras levadas à prostituição e sua organização para garantir a cidadania e o controle da Aids.

As rotas e as formas de aliciamento do tráfico de mulheres também são temas desta série de programas. Alternativas e projetos para superação da miséria em diferentes regiões do país são apresentados como modelos de inserção social que fazem a diferença, principalmente onde não há emprego formal.

As séries produzidas anteriormente pelos repórteres Railda Herrero e Mario de Freitas conquistaram dois prêmios Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos e dois prêmios no Festival Internacional de Nova York.

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